A colecistectomia, especialmente por via laparoscópica, é o tratamento padrão para colelitíase sintomática e colecistite aguda. Embora seja considerada segura e eficaz, uma parcela dos pacientes desenvolve complicações funcionais que podem comprometer a qualidade de vida no pós-operatório.
Principais Complicações Funcionais
1. Síndrome Pós-Colecistectomia (SPC)
10% a 30% dos pacientes apresentam sintomas persistentes ou novos após a cirurgia
- Descrição: Conjunto de sintomas gastrointestinais persistentes ou novos após a remoção da vesícula biliar.
- Sintomas: Dor abdominal em hipocôndrio direito, dispepsia, flatulência, diarreia, náuseas.
- Causas funcionais:
- Disfunção do esfíncter de Oddi
- Hipersecreção biliar contínua no intestino
- Alterações na motilidade intestinal
- Prevalência: Estimada entre 10% e 30% dos pacientes.
2. Disfunção do Esfíncter de Oddi (DEO)
Disfunção do esfíncter de Oddi: Estimada em 1% a 5% dos casos, especialmente em pacientes com dor biliar persistente
- Descrição: Alteração na coordenação ou hipertonia do esfíncter que regula o fluxo de bile e secreções pancreáticas.
- Sintomas: Dor tipo biliar, elevação de enzimas hepáticas, episódios de pancreatite leve.
- Diagnóstico: Manometria biliar, CPRE com avaliação funcional.
- Tratamento: Esfincterotomia endoscópica em casos selecionados.
3. Diarreia Biliar
Diarreia biliar crônica: Afeta cerca de 5% a 12% dos pacientes
- Descrição: Diarreia crônica causada pelo fluxo contínuo de bile no intestino delgado, sem o reservatório vesicular.
- Mecanismo: A bile em excesso pode irritar a mucosa colônica, acelerando o trânsito intestinal.
- Tratamento: Resinas sequestradoras de ácidos biliares (ex: colestiramina).
4. Dispepsia Funcional
- Descrição: Sensação de empachamento, dor epigástrica ou náuseas sem causa orgânica evidente.
- Fatores associados: Alterações na digestão lipídica, refluxo biliar para o estômago.
- Tratamento: Dieta fracionada, uso de procinéticos e antiácidos.
5. Refluxo Biliar Gástrico
- Descrição: Retorno da bile ao estômago, podendo causar gastrite alcalina.
- Sintomas: Pirose, dor epigástrica, gosto amargo na boca.
- Diagnóstico: Endoscopia digestiva alta, cintilografia hepatobiliar.
- Tratamento: Sucralfato, inibidores de bomba de prótons (com eficácia limitada), cirurgia antirrefluxo em casos graves.
Considerações Clínicas
- A maioria das complicações funcionais não decorre de erro técnico, mas de alterações fisiológicas após a retirada da vesícula.
- A abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo gastroenterologistas, coloproctologistas e nutricionistas.
- A avaliação cuidadosa dos sintomas e exames complementares é essencial para diferenciar causas funcionais de complicações orgânicas (como lesão de via biliar).
Referências Bibliográficas
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